Sexta-feira, uma chuvinha e o congestionamento que já seria ruim, fica péssimo. Aí vem aquele mau humor, no carro a percepção de que o trânsito não transita, mais pela falta de atenção e agilidade dos motoristas, carros que ocupam duas faixas e que não partem quando o semáforo acende a luz verde. Se a ansiedade de chegar em casa já era grande, essa vai se amplificando pela irritação com os outros motoristas. Me disseram que se exigimos menos de nós mesmos, passamos a ser mais tolerantes com os outros. Preciso por isso em prática.
Ao chegar em casa ligo o abajur, ligo o som, Marcos Valle, numa coletânea muito tranquila, bossa nova. Abro o livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa de Lourenço Mutarelli, depois da décima quarta página lida, vou até a geladeira pego um chá verde, calculo meus próximos passos na noite. Fabrizio me ligou, já tinha marcado de encontrar o Calil, mas a vontade de ficar em casa parece tomar conta do meu corpo. Ainda não desistí, telefone com Calil:
-E aí? Já está no bar?
-Sim, nem te liguei porque está um p... trânsito e o bar que escolhemos é no Brooklyn.
-Calil, não esquenta, to tranquilo em casa, vai ficar muito tempo aí?
-Mas uma hora no máximo.
-Então passa aqui em casa mais tarde, vamos tomar umas por aqui. Feito?
-Tá, te ligo. Abraço.
-Abraço
A luz se apaga, o som desliga, sim mais uma chuvinha que além do congestionamento causou problemas no fornecimento de energia elétrica.
Segundos de desespero, aquele pensamento maldito "justo agora que estou oficialmente de folga!". Mas foi muito efêmero esse sentimento, sim descreví como um pensamento, mas acho que é mais emocional do que racional um desgosto profundo, como se eu não pudesse fazer nada na escuridão.
Fiquei no sofá onde me preparava para ler, e em pouco tempo não só a agonia de estar no escuro e sem meus preciosos aparelhos elétricos se dissipou como a escuridão também, as luzes da cidade refletiam na cerração do céu fazendo a massa que seria cinza durante o dia refletir uma luz amarela invísel sob o olhar de quem está dentro de casa com as luzes acesas. Nossos olhos se adaptam à escuridão e o que era escuro passa a ser claro. Não tinha claridade suficiente para ler, mas suficiente para achar uma lazanha no congelador e colocá-la no forno, tempo de prepara no microondas, 14 minutos, tempo de preparo no forno 55 minutos. Como a eletricidade faz falta! Pensei em sair de casa, ir ao shopping comer e visitar uma livraria, mas eu já tinha ido a uma ontem, deixei para lá essa idéia e já tinha posto lazanha para assar, 55 minutos...
Voltei para o sofá e aquela ansiedade voltou, a questão: O que fazer sem TV, sem aparelho de som, sem luz para ler, tomar banho frio? Nananina... Não está mais quente como na semana passada. Pensei no meu cansaço, pensei no que tinha feito durante a semana, pensei no quanto pareço patinar ao tentar cumprir minhas tarefas...
Ligo para e empresa responsável pelo fornecimento de energia, um sistema automático já perguntou qual era o meu problema, se fosse falta de luz eu já podia digitar o meu CEP e registrar a queixa simplesmente. Mas alí no sofá sem ter o que fazer, digitei uma opção para falar com a atendente, Mirian era o nome de quem me atendeu educada, falava português bem, não era o tipo de pessoa que trabalha em tele-marketing, essas que respondem coisas como "Nós vamos estar registrando a reclamação e vamos estar tomando providências..." esse tipo que já virou piada e a piada já virou chavão. Imaginei seu rosto, não era bonita nem feia, estudante de enfermagem ou letras, trabalhava para estudar, família simples mas correta, pais empenhados em dar estudo aos filhos, torná-los pessoas prontas para a vida, se possível ver os filhos chamados de doutor. Seu namorado, um desenhista técnico trabalha numa empresa que presta serviços para a Petrobrás, batalhou para comprar uma moto, e no final da noite busca Mirian para levá-la para casa, seus pais a esperam marcando o horário de chegada, para que o jovem casal não ultrapasse as regras de bons costumes, como se já não tivessem ultrapassado há tempos.
Falta do que fazer é incrível! Como podem fazer uma propagando que diz que uma bebida energética te dá asas? A nossa cabeça nossa imaginação é que nos dá asas, sem estímulos da TV, livros, revistas, jornais, internet, aparelhos de som, tudo parece mais interessante, até a moça que atende o telefone na compania de eletricidade.
Logo a ansiedade se dissipou, e ter de esperar pela lazanha acabou sendo um prazer.
Volto a me deitar, cabeça sobre o braço do sofá apoiado em uma almofada. Penso em acender velas, logo desisto, não estava tão ruim sem luz. Penso em minha mãe, penso em meus irmãos, logo vem meu pai, pai pare de pensar em trabalho, queria muito que saísse desse seu maravilhoso mundo das pesquisas científicas, e principalmente do mundo da política universitária, penso no meu pai na praia, não o vejo em uma praia desde a minha adolescência, se bobear ele nunca mais foi a uma praia, penso nele repetindo:
-Boshta, esse marrr só tem boshta. (imitando sotaque de carioca ou santista)
-Pai pára de falar bobagem!
-É isso mesmo filho, imagina o esgoto que vai para o mar! imagina esse pessoal todo aí no mar? Não tem banheiro para todo mundo, aonde é que eles fazem o cocô deles? E o xixi? Esse mar é meshmo uma boshta!
-Pai, olha a praia que bonita, dia lindo para de pensar em bobagem!
-Seria bonito se não tivesse esse cheiro!
-Que cheiro pai? Não viaja, isso é maresia! É bom, você que tem asma deveria gostar, ar com um monte de umidade, coisa que falta em Ribeirão, aquele ar seco!
-Seria ótimo, ótimo se não tivesse esse cheiro de boshta... (com ar de deboche)
Lembrei da Belina II com a família indo para Ubatuba, depois de 2 horas de viagem, o carro com a traseira arriada começou a falhar até que párou próximo a Limeira, seriam 6 horas de viagem, e nós tinhamos começado a menos de duas...
-Carburador doutor isso é carburador, ou a boia encharcou, ou o giclê travou.
-E tem alguém que possa resolver isso? (perguntou o doutor coçando a cabeça)
-Sim tem uma mecânica aqui perto, vou passar por lá e aviso que o doutor está com o carro parado aqui na estrada.
Minutos depois chegou um italiano que falava com um sotaque carregadíssimo. Olhou, olhou, tirou o filtro de ar, mecheu um pouco e pediu que meu pai desse partida, o carro pegou e depois de pagar o mecânico seguimos viagem. Até aí sem problemas, ruim mesmo foi passar as 4 horas restantes com com o meu pai falando do mecânico e repetindo o seu nome estrionicamente:
-STRABÉÉÉLLI!
Teria sido só ruim mas 2 anos depois outro carro do meu pai parou alí no mesmo lugar e quem o salvou novamente foi o "STRABÉÉÉLLI!", passamos anos ouvindo meu pai falar estrionicamente o nome do mecânico que o salvou por duas vezes na estrada, Seria trágico se não fosse cômico!
Os carros sempre davam problemasnas idas ao litoral, porque meu pai não ia muito a praia, quando ia queria levar a casa junto, 3 filhos, empregada, malas até o teto e sobre o teto, não há perua que agüente.
Na escuridão, silêncio, como é silenciosa essa região. Olho pela janela, desde o sofá mesmo, e vejo que todo o quarteirão está sem luz, no quarteirão de cima as luzes dos prédios estão acesas.
O telefone toca, é a Ti, ela está em Ribeirão, nos falamos umas 8 vezes pelo telefone hoje, quando estamos os dois em São Paulo não nos falamos tanto...
-E aí Caê?
-Aqui nada. E aí?
-Vai sair? Eu acho que vou ficar em casa, estou muito cansada, fiquei arrumando as coisas na chácara desde cedo, fui ao médico também...
-Acho que não vou sair não, estou sem luz em casa.
-Sai então vai ficar em casa? Sem fazer nada?
-No começo tava ruim, agora nem estou tão incomodado, logo que acabou a energia eu te liguei, mas deu caixa postal.
-Sim desliguei o celular, estou ficando sem bateria.
-Nos falamos mais tarde. Te amo.
-Tá, beijo, te amo.
Voltei ao sofá, aquela agonia ameaçou voltar, mas se esvaiu rapidamente com a sensação de que eu não estaria tão bem com o som, a tv, e as luzes...
Pensei na Cacau, pensei no quanto eu gostaria que ela estivesse aqui, e então ela subiu no sofá com a aquele olhar de quem pergunta se pode mesmo subir se encostou nos meus pés e dormiu. Pensei em minha mãe, ela passou para me dar um beijo e me dizer boa noite, como ela sempre faz depois de dormir no sofá e acordar com o próprio ronco, beijou minha bochecha e depois apertou meu rosto contra o dela. Pensei na Ti, pensei na forma como nos deitamos juntos no sofá e como a abraço, sentí meus braços se aquecerem ao me encostar em sua pele, ela se virou me deu um beijo pude sentir o cheiro do ar que ela respirava e disse que preferia que a luz não voltasse, sentí ela se contorcer para levar a mão à minha cabeça e fazer um cafuné no meu cabelo, e ouví os fios do meu cabelo se chocarem com os dedos dela uns contras os outros, ouví a unha dela raspar meu couro cabeludo. Sentí o cheiro do shampoo dela, hummm que delícia, cheira a... Hummm lasanha de calabresa!
sexta-feira, 13 de março de 2009
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1 comentários:
Caetano querido,
Como vc escreve gostoso!
Mãe.
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