quinta-feira, 19 de março de 2009

Olhares Estrangeiros

Depois de escrever tantas e longas bobagens resolví retomar a seriedade que um blog de fotógrafo deveria ter.

Admiro diversos fotógrafos, diversas vertentes da fotografia, dos artistas plásticos que usam a fotografia somente como técnica aos que se debruçam sobre as infinitas possibilidades que a linguagem fotográfica tradicional pode oferecer. Há um certo senso comum de que o trabalho e o autor são uma só coisa, que a história de vida ajuda a interpretar a obra e melhor compreendê-la. Eu concordo, alguns trabalhos passam a ser muito mais admiráveis quando conhecemos a história de vida do autor. Porém os trabalhos de que mais gosto se esgotam neles mesmos.
Entre esses autores, alguns dos que deixam refletir a sua vida em seu trabalho, sem que seja necessário que se questione ou se busque saber qual é a sua história, pois ela já está estampada na obra, estão os fotógrafos de zonas de conflito.
Quando observamos as fotos de Sebastião Salgado no livro Êxodos, ou o livro Hell de James Nachtwey, não há dúvidas da agonia que eles presenciaram e de alguma forma reproduziram em suas fotografias, não há dúvidas do quanto se entregaram ao sofrimento alheio. Eles usam a fotografia como uma linguagem rápida para atingir seus leitores. Nachtwey tem estampada a seguinte frase logo no início de seu website:
"I have been a witness, and these pictures are my testimony. The events I have recorded should not be forgotten and must not be repeated."

Eu sempre fugí das oportunidades que surgiram para ir à guerras e zonas de conflito, cobrí conflitos de terra no Brasil, conflitos entre polícia e ocupantes de terrenos ilegais. E não me sinto atraído por isso, tenho a nítida impressão de que as imagens perderam a sua força no sentido de mudar essas situações, espero sinceramente que eu esteja enganado, mas quando colocamos a pobreza e miséria estampada em um pôster na parede de uma sala de visitas é porque aquilo já não incomoda. Não duvido 1mm das boas intenções desses fotógrafos, mas duvido da capacidade que um dia tivemos de nos mover para mudar o mundo por causa de uma imagem que nos tocou.

Conversei com colegas especialmente sobre os dois fotógrafos que linko abaixo, os dois fizeram trabalhos sobre as favelas no Rio de Janeiro e recebí opiniões diversas, algumas falavam que um deles fez um trabalho sobre favelas no Rio de Janeiro sem sujar os sapatos, outros diziam que havia fotos que pareciam mais cenas de filme americano... Eu admiro os dois, acho que eles são muito menos explícitos e muito mais poéticos do que Nachtwey, enquanto Nachtwey grita, João Pina e Sakamaki sussurram os sofrimentos humanos, sussurram a tristeza e os problemas sociais em meio a sorrisos, cores e esforços para de vida cotidiana. A minha impressão é que esses caras chegaram mais perto, conheceram melhor e se dispuseram mais do que Nachtwey a ir fundo não só nos problemas e na violência, mas também no modus-vivendi em suas viagens pelo mundo. O olhar estrangeiro está presente em todos os trabalhos citados nesse texto, mas alguns sujaram sim os sapatos, e sujaram suas almas chegando realmente perto da realidade "toda" não só das balas nas cabeças e corpos mutilados de seus retratados. O que me parece muito mais respeitoso com seus retratados.

Por isso sugiro os links desses caras que propõem um olhar até certo ponto poético sobre a vida humana, memsmo em zonas de conflito:

http://www.joao-pina.com/

http://www.qsakamaki.com/

2 comentários:

C&C disse...

Querido amigo, estas reflexoes me tocaram... realmente... onde foi que perdemos nossa capacidade de agir frente a indignacao???
A gente se sensibiliza, se comove, se indigna... mas nao agimos... ficamos com o coracao partido ate o proximo compromisso nos direcionar para outras paisagens...

Salete disse...

Olá Caretano !!!
Uma frase sua nesse texto me fez lembrar exatamente de uma situação que vivi dia desses em que fui fotografar 'um magnata' e na mesa da sala havia um livro do Salgado, pensei o mesmo que você: se ele está aí é porque essa situação realmente não o incomoda. E o sujeito ainda comenta: eu adoro fotos PB!! pensei: aposto que não faz nada para mudar isso !!!